06 abr 2017

Sobre filhos, netos e afetos

Post por VeronicaCobas às 11:55 em Crônicas, Verônica Cobas

Não sei a mãe que fui, acho que sei algumas coisas da mãe que sou, mas ainda busco muito ser a mãe que não sei se serei. Essa curva de aprendizado materno é dura, viu? É que nem assim como a vida de todo mundo, cheia de grandes escorregadas, quedas abissais, algumas ondas surfadas e uma ou outra vitória no bingo. Só que com um poderoso ingrediente a mais: o medo, que tantas vezes parece culpa, talvez vaidade, muita proteção, algum desleixo, quem sabe cansaço, susto, autossuficiência e autopiedade. Um emaranhado de nós que me fizeram dizer sim quando eu também queria dizer não, ou dizer não quando o sim era claramente a melhor opção. Nunca fui boa de múltiplas escolhas.

Custei muito a me dar conta de que era melhor nas discursivas, na conversa para além do comando, naquele vento que bate durante um papo qualquer e que traz a luz que desvenda os mais inexpugnáveis teoremas. Sei que não disse os muitos “te amo” que a modernidade nos trouxe como gíria contemporânea, hoje digo, corro atrás, aprendi a seguir os meus instintos não invasivos, mas sem tanto receio de dar o passo, tocar a campainha e dizer simplesmente: estou por aqui só para dar um alô.

E aí vieram os netos e ter netos é despencar da plataforma onde o ego e o superego habitam. É sorvete de coco, rede balançando em frente ao mar, o encantamento mágico das fogueiras. Poderia passar horas só olhando e com aquela doçura de quem sente o abraço cálido da mãe. Meio louco esse cenário, mas é assim que sinto. A filha no conforto aconchegante do ventre. Tê-los por perto é estar a salvo, corpo e alma protegidos pela capa mágica da paixão. Ali, ao lado deles, vendo-os desvendar os mistérios do conhecer, tocar, sentir, experimentar, é como se me apaixonasse continuamente. Como se recebesse a benção da continuidade, reinício permanente e sem taxa de inscrição.

Não raciocino sobre o futuro porque não tem importância. Como serão nossas histórias, afinidades, sintonia. Tenho clareza de que estarei por ali, olhando, brincando, dando a mão para atravessar a rua ou para descer da cadeira. Há magia nessa alquimia que faz brotar os grãos, embora pareça tão óbvio, orgânico, natural. Quero que saibam que hoje, com a maturidade das árvores antigas, vou seguir o curso sem tanto medo, garantindo a água boa do afeto. Se necessário ou não.



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