Verônica Cobas

15 abr 2016

Somos uma máquina de lavar?

Post por VeronicaCobas às 11:08 em Crônicas, Verônica Cobas

Imagine você dentro de uma máquina de lavar bem cheia de todo o tipo de roupa e em funcionamento. São cores múltiplas, tipos de tecido diferentes, alguns macios, outros duros de doer, alguma sujeira, visão turva, e vai espuma e entra água. De repente, tudo clareia. Logo depois, turva tudo novamente. Alguma semelhança com a cabeça da gente? Pois é! Não raras vezes me sinto a própria roupa dentro da máquina de lavar.

Observo isso com atenção quando inicio a minha prática de meditação diária ( ah…tá certo, nem sempre diária, mas o objetivo é sempre esse). Vou a caminho de uma mente livre de pensamentos, mas a fronteira é sempre tênue. Estou longe de tudo embora presente, e de repente vem uma lembrança, um compromisso e sempre preciso lembrar para mim mesma: agora não, Verônica. Esse pensamento, não. Até porque os pensamentos são como as roupas na máquina de lavar.… Leia Mais...

04 abr 2016

Ah…as palavras!

Post por VeronicaCobas às 15:32 em Crônicas, Verônica Cobas

Leio a crônica da Martha Medeiros , que relata seu incômodo quando alguém chega até ela, ao vivo ou virtualmente, usando a expressão “minha filha” como forma de tratamento. Difícil não concordar. Mesmo com toda a boa vontade do mundo, começar assim não é começar bem. Porque, salvo as exceções que argumentam as regras, quando  alguém vem com palavras em sua direção e tudo começa com “ô, minha filha”, lá vem bomba e nada da doçura que a frase contém quando apenas carameliza as relações entre mães e filhas de verdade.

Martha cita a posição de desigualdade que a expressão insere, como se as duas partes já partissem para o embate em níveis de importância, ou inteligência, ou poder diferenciados. “ Ei, você aí…minha filha, presta atenção no que eu estou te dizendo”. Isso quando não vem o pior de todos: “Filhinha, dá para me ouvir?”. Mas, “filhinha” por quê? A infantilização das denominações tem lugar cativo nas relações de afeto – para algumas pessoas, nem aí.… Leia Mais...

18 mar 2016

De olhos deliberadamente doces

Post por VeronicaCobas às 13:38 em Crônicas, Verônica Cobas

Ando numa fase de observação distanciada. Olho para o que o vejo e tento, com todas as forças – sim, um dia conseguirei fazer com que isso seja natural e espontâneo – perceber o brilho de cada atitude, a dor de cada gesto, os rostos contraídos, o semblante relaxado, a raiva explícita e, principalmente, o amor expresso. E sem interpretar, embora só em adjetivar cada uma das percepções que acabei de descrever tenha consciência de que cabe alguma interpretação em tudo isso. Bom..ainda não atingi o nirvana do distanciamento absoluto.

Mas, quando falo em observação distanciada preciso dizer que ela nem é tão distanciada assim. Melhor seria dizer: ando numa fase de observação distanciada baseada em olhos deliberadamente doces. Isso provoca uma revolução naquilo que condicionamos ver como bom ou ruim, feliz ou alegre, do mal ou do bem. Me surpreendo observando mãos que tamborilam incessantemente como se fosse possível acelerar o tempo, a vida, o trem do metrô.… Leia Mais...

11 mar 2016

Viver é um ato solitário, único e indivisível

Post por VeronicaCobas às 10:28 em Crônicas, Verônica Cobas

Escrever é um ato solitário, único, indivisível, por mais que revisemos, rasguemos as folhas, tentemos recomeçar a partir de um mesmo parágrafo. E não é diferente de viver, por mais que estejamos permanentemente – o círculo fisiológico do dormir e acordar parece sempre um estímulo à ideia de um novo começo – dando início a novos ciclos. Não há dor, pelo menos ao meu olhar, no que é solitário. A adjetivação da expressão solidão é que soma ao momento solitário uma série de outros sentimentos do ontem e do amanhã. Porque estar sozinha não significa necessariamente estar abandonada, ou desprezada, ou empurrada para o poço fundo e escuro do desapego. Não representa a certeza de se tem menos valia, do “ninguém me ama”, do ” o que foi que eu fiz de errado”.

Amar é um ato solitário, único, indivisível, por mais que o associemos à troca, ao compartilhamento, como se não fosse possível amar sem escambo, sem declarações expressas e permanentes – em duas vias autenticadas, por favor.… Leia Mais...

04 mar 2016

Entre o que fazemos e aquilo que pensamos

Post por VeronicaCobas às 13:51 em Crônicas, Verônica Cobas

Cena 1:

Um professor que trabalha com a gente na central de reforço escolar comenta que recebeu pelo whatsapp imagens do corpo do rapaz desaparecido no Rio de Janeiro, filho do ator Nizo Neto. E ainda acrescenta o quão horríveis eram as imagens, resultado de um afogamento acontecido há dias. Do outro lado da mesa, não consigo esconder a minha expressão facial que mistura perplexidade com incômodo. As perguntas para as quais não tenho resposta pulam agitadas à frente dos meus olhos: quem fotografou? Se foram os bombeiros, como um elemento que pertence a uma instituição responsável por um processo legal pode ser repassado dessa forma, a ponto de se espalhar – e isso realmente não é difícil – por toda a rede? Que amigos o professor têm e que consideram que compartilhar esse tipo de imagem não o envolve, ou não é nocivo, ou “não tenho nada com isso, apenas recebi a foto”?… Leia Mais...