Verônica Cobas

29 ago 2014

Tecendo as linhas de nossa história

Post por VeronicaCobas às 07:46 em Crônicas, Verônica Cobas

Por que nos sentimos tão bem voltando para a casa? Retornando para aquele lugar que pode ser do tamanho que for, pode ter a dimensão de um quarto, mas que é a expressão da experiência do aconchego morno, do ninho aquecido pelo carinho de mãe. Por que desejamos tanto a vivência aventureira, a sensação da liberdade de partir,o afã de um mundo novo que se descortina ali na frente, após a curva, mas que carrega em si uma história que só se completa quando chega o dia de voltar?

Gosto mesmo de pensar que somos todos tecelões de histórias e voltar para casa significa mergulhar no enredado das linhas que aninham nosso corpo e alma. Ali somos felizes – embora sejamos também felizes em outros lugares – porque não tateamos na incerteza do que vem pela frente. Conhecemos móveis, posições, frestas, cores e cheiros. As linhas tecidas, os caminhos traçados no risco das histórias que ali vivemos nos permitem saber onde e como pisar, quando e a hora de recuar, não somos piratas ou conquistadores, somos apenas marujos de um mar e de um barco que é só nosso.… Leia Mais...

15 ago 2014

“Que gente é essa?!”

Post por VeronicaCobas às 08:35 em Crônicas, Verônica Cobas

Toda vez que eu consigo realizar em mim a compreensão sobre o quanto somos todos diferentes e, diante disso, não me espantar, não achar exótico, não ficar constrangida, não ter vergonha, não ter medo nem incômodo, experimento a sensação boa de enfrentar e vencer o dragão do preconceito. Sim, como todos nós, inúmeras vezes desço esse degrau e me percebo vivenciando a incompreensão sobre a diversidade, mesmo que à luz de expressões como “mas isso não é normal..não é bom..não está certo”.

Mas, e além do código de leis – que tantas vezes interpretamos como errado – e de um certo guia de orientação sobre valores, que aprendemos em nosso universo familiar ou no entorno da vida onde cruzamos infância e adolescência, o que é que é certo? O que é o normal? O que é o bom? Sei lá, quando muito sei aquilo que não me faz bem, sei daquilo que minha linha ética não me permite fazer, sei daquilo que me faz sofrer, sei daquilo que tem gosto ruim.… Leia Mais...

01 ago 2014

Nós e a fauna exótica

Post por VeronicaCobas às 07:36 em Crônicas, Verônica Cobas

Trabalhei numa editora de projetos editoriais científicos durante muitos anos e o meu chefe por lá sempre repetia do prazer em ter o que ele classificava de uma vida espartana. Meio que baseada assim no conceito dos homens da cidade-estado de Esparta, na Grécia Antiga, quase todos soldados, forjados na disciplina, em normas rígidas, onde o objetivo era a luta e a vitória. Aos espartanos confrontava-se o estilo ateniense. Na outra cidade-estado, Atenas, resplandecia a cultura, as artes, a filosofia. Atenas era o berço de Tales de Mileto, Sócrates, Platão e Aristóteles. Pois o meu chefe batia no peito para dizer que era espartano, na vida, nos hábitos, na alimentação. Não cometia excessos, comia frugalmente. No café da manhã, apenas frutas; no almoço, pequenas porções. Era rico, bastante rico, mas os ternos mandava cerzir até que o colarinho não se sustentasse mais. Colocava meia sola no sapato e economiza até moedas.… Leia Mais...

25 jul 2014

Os vilões que construímos

Post por VeronicaCobas às 08:15 em Crônicas, Verônica Cobas

Sim, eu sou do século passado. Está certo que qualquer pessoa com mais de 15 anos é do século passado, mas eu – e as tantas outras pessoas da minha geração – são do século passado mesmo. Um tempo em que o mundo era completamente maniqueísta. Ou você era do bem ou você era do mal, mesmo que o bem e o mal fossem definidos pela sua própria ótica, ou pela ótica de seu universo familiar. As crianças eram educadas à luz das princesas e dos príncipes encantados, ainda que as princesas precisassem trabalhar e que a elas fosse oferecido o poder da conquista da própria independência. Pelo menos lá em casa era assim. Eram valores, objetivos, princípios éticos construídos na ideia do bem e do mal. E com pouca concessão aos possíveis desvios ou equívocos que a vida nos trouxesse, além dos perdões oferecidos, obviamente.

Falo de tudo isso pensando em quanto ainda hoje repetimos esse modelo, embora vivamos um tempo de espectro mais amplo e onde pais educam seus filhos também na lógica de que a visão maniqueísta do bem e do mal é muito mais larga do que a desenhávamos no passado.… Leia Mais...

18 jul 2014

Sobre nascer e morrer todos os dias…

Post por VeronicaCobas às 07:26 em Crônicas, Verônica Cobas

Acordo e sento para escrever essa crônica sob o peso de tantas notícias ruins: Israel mais uma vez impõe sua força bélica e beligerante por sobre os palestinos na Faixa de Gaza, um novo avião da Malaysian Airlines cai, desta vez derrubado por um míssel, impedindo a continuidade da vida de mais de 250 pessoas; uma mulher é morta com um tiro na cabeça no bairro da Gávea após sacar dinheiro de um banco. Impossível não sentir o peso das persas e das dores que as perdas provocam. E como se morrêssemos todos nós a todo o momento. Nessa manhã, morri com todas essas quase seiscentas pessoas que nos deixaram por motivos que só se explicam na crueldade por mais que tentem se enquadrar nos limites da sobrevivência.

Eu morro todas as vezes em que uma criança chora porque sua casa foi atacada e seus pais mortos pelas bombas explosivas da disputa estratégica do poder.… Leia Mais...