Verônica Cobas

27 maio 2016

A dependência do afeto

Post por VeronicaCobas às 13:01 em Crônicas, Verônica Cobas

Das dicotomias humanas, a mais crucial é a eterna impermanência entre sermos assim do jeito que somos – absolutamente individualistas – e dependermos tão visceralmente do afeto dos outros. Saímos do ninho quente e amniótico do ventre da mãe e esta será sempre a melhor e mais forte expressão daquilo que buscamos como conforto, por mais que vivamos em um mundo tantas vezes só nosso, por mais que busquemos alguém ou muitos alguém que existam apenas para ver-nos com os olhos que nos mesmos nos vemos, assim do jeito protetor, vitimizado, forte, poderoso, frágil, equilibrado e insano com o qual nos olhamos e sobre o qual, por mais que eventualmente nos culpemos, permanentemente nos perdoamos.

Crescemos, amadurecemos, mas não conseguimos aprender a ver o mundo sem os antolhos desse universo paralelo que criamos no nosso entorno e no qual somos os imperadores, soberanos de um reino não necessariamente despótico, mas onde as decisões, as escolhas, os prazeres, os saberes e as vontade são só nossos.… Leia Mais...

20 maio 2016

Conectados e brigando uns com os outros

Post por VeronicaCobas às 11:39 em Crônicas, Verônica Cobas

Confessa, aí:  está tudo muito chato,não? Estamos em guerra! De palavras, de linhas ideológicas, de opinião, brigando uns com os outros e cedendo à tentação do julgamento sobre a opinião alheia. É verdade que somos gregários, que nos sentimos confortáveis perto daqueles com os quais, de uma forma ou de outra, formamos um bando, um grupo, um exército. Quanto mais gente de um lado, mais certeza de que nossa opinião sobre as coisas têm eco, reverbera, se expande, toma de assalto às mídias sociais e faz de nossas palavras, e posts, a verdade.

Lendo a crônica da Cora Rónai que aborda tema semelhante, fiquei matutando com meus botões. Mas, será que isso é novidade ou sempre foi assim? Essa coisa de dois lados, de um antagonismo de ideias e paixões, da tendência condicionadora de sempre buscarmos os que imaginamos iguais como se iguais fôssemos. Não é de hoje que, vez ou outra, quem sabe e vez e sempre, colocamos pessoas na fogueira do capeta – aquela onde moram os que pensam diferente da gente – ou no altar santificado – onde estão aqueles com os quais nos identificamos ou reconhecemos.… Leia Mais...

12 maio 2016

Falando de leggings e dos vários tipos que frequentam academias

Post por VeronicaCobas às 15:17 em Crônicas, Verônica Cobas

Há de se fazer um estudo antropológico sobre o que é e como é a vida em uma academia. Não uma vida dentro da academia, mas a academia dentro de sua vida, aquela parte da semana que você até pode não gostar, que adoraria abduzir, mas que por circunstâncias variadas – da saúde ao enfrentamento da lei cruel da gravidade – tem que encarar.

Bom dizer que eu gosto. Faço parte daquela tribo ainda mais esquisita que topa – e curte – acordar bem cedo para chegar na academia quando o mundo ainda não a invadiu para levantar peso, fazer força, provocar as veias do pescoço, suar, suar e suar. Há também quem odeie tudo isso, odiando principalmente a si mesmo. Porque só odiando a si próprio para pagar a academia, arranjar mil desculpas para não ir nunca e quando, enfim, por lá chega, a ideia é fingir que malha, pulando todos os aparelhos que dão algum mínimo trabalho, reduzindo o número de repetições sem culpa alguma e aproveitando para dar um view nos bofes e monas do entorno.… Leia Mais...

06 maio 2016

Para a mãe que vive em mim

Post por VeronicaCobas às 10:14 em Crônicas, Verônica Cobas

Outro dia, conversando com uma amiga médica intensivista, e que tem um especial interesse no tema dos Cuidados Paliativos, ou seja, procedimentos que objetivam uma compreensão serena e confortável da iminência da morte, ouvi dela uma história. Uma família com a mãe internada em uma UTI, já em  estado terminal, mas consciente, e que durante o período de uma semana viveu todos os sentimentos que são comuns a essa situação. Dor, medo, sofrimento, angústia, mas que apoiada por uma equipe de Cuidados Paliativos, soube reconhecer e aceitar o momento e, principalmente, o desejo da mãe de deixar acontecer sem procedimentos invasivos drásticos, como a entubação. Ela sabia que ia partir e queria que aquilo acontecesse de forma suave e confortável. Quando a família, em especial a filha, entendeu e aceitou, o momento aconteceu. E naquele momento, segundo o próprio relato da filha, a saudade amainou porque ela teve consciência de que a mãe estava dentro dela e, se dentro dela, verdadeiramente para sempre.… Leia Mais...

15 abr 2016

Somos uma máquina de lavar?

Post por VeronicaCobas às 11:08 em Crônicas, Verônica Cobas

Imagine você dentro de uma máquina de lavar bem cheia de todo o tipo de roupa e em funcionamento. São cores múltiplas, tipos de tecido diferentes, alguns macios, outros duros de doer, alguma sujeira, visão turva, e vai espuma e entra água. De repente, tudo clareia. Logo depois, turva tudo novamente. Alguma semelhança com a cabeça da gente? Pois é! Não raras vezes me sinto a própria roupa dentro da máquina de lavar.

Observo isso com atenção quando inicio a minha prática de meditação diária ( ah…tá certo, nem sempre diária, mas o objetivo é sempre esse). Vou a caminho de uma mente livre de pensamentos, mas a fronteira é sempre tênue. Estou longe de tudo embora presente, e de repente vem uma lembrança, um compromisso e sempre preciso lembrar para mim mesma: agora não, Verônica. Esse pensamento, não. Até porque os pensamentos são como as roupas na máquina de lavar.… Leia Mais...